Poeta castrado, não!



Descobri hoje que Ary dos Santos já morreu há 20 anos. Não vou ser hipócrita e deizer que é um grande poeta, etc e tal, pois na realidade nunca li nada dele, e provávelmente nunca irei ler (não gosto de poesia), e se conheço o nome é pelo simples facto de ele ser o autor das letras várias músicas, já clássicas, de fado e musica ligeira.

Não gostar de poesia e não conhecer a obra do senhor mais nem menos do que o comum dos portugueses, não invalida que eu aqui reproduza um poema que me fascinou. Não serei o primeiro nem o único a faze-lo por estes dias... Descubram porquê!





Poeta Castrado, Não!

Serei tudo o que disserem

por inveja ou negação:

cabeçudo dromedário

fogueira de exibição

teorema corolário

poema de mão em mão

lãzudo publicitário

malabarista cabrão.

Serei tudo o que disserem:

Poeta castrado não!



Os que entendem como eu

as linhas com que me escrevo

reconhecem o que é meu

em tudo quanto lhes devo:

ternura como já disse

sempre que faço um poema;

saudade que se partisse

me alagaria de pena;

e também uma alegria

uma coragem serena

em renegada poesia

quando ela nos envenena.

Os que entendem como eu

a força que tem um verso

reconhecem o que é seu

quando lhes mostro o reverso:

De fome já não se fala

- é tão vulgar que nos cansa -

mas que dizer de uma bala

num esqueleto de criança?

Do frio não reza a história

- a morte é branda e letal -

mas que dizer da memória

de uma bomba de napalm?

E o resto que pode ser

o poema dia a dia?

- um bisturi a crescer

nas coxas de uma judia;

um filho que vai nascer

parido por asfixia?!



- Ah não me venham dizer

que é fonética a poesia !

Serei tudo o que disserem

por temor ou negação:

Demagogo mau profeta

falso médico ladrão

prostituta proxeneta

espoleta televisão.

Serei tudo o que disserem:

Poeta castrado, não!



in SANTOS, Ary dos. - Resumo. Lisboa, 1973.

Thought byBoabdil at 15:20  

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