Parábola da água (ou como é difícil tomar decisões quando não sabemos o que queremos)
“Bom dia” Bom dia. Que vai tomar? “Uma água se faz favor” com ou sem gás? “…” fresca ou natural? “…” com ou sem sabor? E que sabor? “…” e tem preferência por alguma marca em especial? Temos luso, carvalheiros, vimeiro, castelo, Campilho, serra de estrela, das pedras, caramulo… “deixe estar. Já não quero água. Aliás, já não quero nada. Bom resto de dia para si.
Thought byBoabdil at 05:10 0 humans wrote something
Almoço de família domingueiro.
Na televisão ainda a notícia dos ataques bombistas em Madrid. A minha mãe questiona, "mas qual a necessidade de matar tantas pessoas inocentes?" "isto é uma guerra. Conheces alguma guerra onde quam morre são os culpados e não os inocentes?" Este meu pai tem cada ideia mais estranha.
Thought byBoabdil at 16:09 0 humans wrote something
Diabos há muitos
Os diabos da tânsmania são muito interessantes. São tão irrascíveis e violentos, que para além de não lhes causar qualquer transtorno matar as suas crias, preferem, mesmo na abundância, roubar o naco de carne dos outros diabos, a comer aquele que lhes está destinada.
Ainda bem que os humanos não são assim!
Thought byBoabdil at 16:04 0 humans wrote something
Acordei cego.
Despertar estranho, pois à consciência da minha cegueira está associado a inexistência de factos visuais para interpretar. Entre encontrões aos móveis e cabeçadas nas portas consegui tomar pequeno-almoço. Suponho que desfiz a barba bem (embora tenha sentido um liquido quente a escorrer pelo pescoço no final do acto) e que até acertei com a sanita enquanto urinava. Esta minha condição permite que as coisas sejam da forma que o meu cérebro as projecta, a meio caminho entre o sonho e a esquizofrenia. Interessantes as alucinações visuais de um cego esquizofrénico (e não serão todos os esquizofrénicos cegos?).
Ao fim de algum tempo todos os meus outros sentidos estão no máximo. A cegueira levou-me para um plano superior de percepção. O barulho que de inicio não passava de cacofonia, speed metal ou Toy, causando confusão generalizadas nos meus circuitos cerebrais, começa a passar por um crivo selectivo, distingo a pouco e pouco as conversas dos vizinhos, os carros, e até o bater acelerado do meu próprio coração com a ansiedade de absorver todo o mundo que está para além do apartamento.
E saí de casa.
Empurrado pela multidão apercebo-me que já não vejo as suas caras tristes definhando entre pensamentos fúteis. Sinto o tilintar das moedas e o murmúrio de agradecimento, mas não vejo o indigente. Mas não sou um cego platónico. Eu já vi. Todos os sons, cheiros, o macio da lã e a dureza da pele, não os posso interpretar livremente. Estou preso pelas memórias do que já vi. Não preciso de ver o nojo da cara do pedinte e o sorriso orgásmico de quem dá esmola, para saber que eles estão lá. O suor que cheiro tem dono. É aquele homem obeso num fato lilás e cabelo seboso, que procura movimentar-se durante o seu passeio semanal.
Não gosto deste lado da estrada. A percepção de que consigo ver mesmo estando cego, torna-me um invsual numa terra de cegos. “deixe que eu ajudo-o a passar a estrada” mais que uma oferta de uma mulher anónima, soou-me a pedido, mais um lamento pela sua condição, do que pena pela minha. Ninguém dá nada a ninguém, e se a minha cegueira estimulou os outros sentidos, eu continuo sem ver! Sinto de forma diferente a vulnerabilidade do meu corpo, qualquer passo falso pode significar o fim. Poderei ter um encontro com a Morte sem a olhar de frente. E confiar cegamente em alguém num momento de maior vulnerabilidade? Claro! “Está demasiado trânsito para atravessar sozinho” A voz que inicialmente me parecia indistinta de todas as outras que me rodeiam, surge agora mais aveludada, quase sensual. Embora cego não perdi as minhas faculdades de homem, e passou a ser possível identificar pela voz a altura da minha interlocutora e agora guia, senti que os seus dedos eram firmes não se notando o balofo de uma existência fútil… Sou agora uma cria de ave que se deixa empurrar para fora do ninho, confiando na palavra da mãe. Leva-me para onde quiseres (sinto que não se pode dar carta branca a humanos, quaisquer que eles sejam),
Á sensação de comunhão com esta mulher, seguiu-se uma desconfiança virulenta. Não sinto já o movimento das pessoas. Olham-me para mim de mão dada com uma estranha que se prepara para me ajudar(?) a passar para o outro lado. Exibem um sorriso irónico, de prazer abjecto, na antecipação da queda de quem lhes é superior, agora todos em comunhão, felizes e ignorantes do prazer que por breves momentos tive, e que eles nunca poderão possuir. No lado de lá, vou chorar de pena pelos vossos sonhos abjectos e inúteis da minha queda. Por isso é que nunca serão invisuais numa terra de cegos!
Vamos!
Com o braço na minha cintura indicou-me o caminho. A cada passo sentia crescer a minha confiança e a minha empatia por esta desconhecida…
Ei! Onde estás? A minha confiança foi-se! Rodopio sobre mim mesmo e não a vejo… porra! Ainda estou cego! E confuso. Não brinques comigo… estás a brincar não estás?! Não me ias deixar aqui sozinho no meio da…
PUM!!!
Acordei no hospital. E já conseguia ver… “lamento… o Sr. está tetraplégico” quê?! “existem possibilidades de recuperação, mas só com o tempo se saberá a extensão das sequelas, que irão sempre ficar em menor ou maior escala” Obrigado Dr. Naõ me consigo mexer, mas pelo menos já não estou cego.
Thought byBoabdil at 05:26 0 humans wrote something
Where is the pain? (ou Um Pequito de Dignidade)
“Venha cá sr. dr., rápido!” “então enfermeira?! Está alguém para morrer?” “tenho um caso preocupante em mãos. Um dos pacientes tem o pénis erecto!” “que bom para ele” “mas está assim desde que cá chegou ontem em estado comatoso” “gostaria de ajudar mas sou cardiologista não sou nem urologista nem prostituta!” “que não é urologista eu sei, mas discordo que não passe uma vulgar rameira com diploma...” “como?!?” “… quando trocou o juramento hipocrático, por uma viagem a Cuba, vendeu a sua dignidade!” “…” “conheço bem os argumentos! Os remédios são melhores, são aqueles em que confio, e a saúde está primeiro (principalmente a dos seu filhos), e as pessoas estão habituadas ás caixas de uma certa forma e cor e será difícil habituarem-se a umas diferentes. Porque não lhes passa um atestado de insanidade mental? Assim justificaria de uma vez todas as faltas ao trabalho, às aulas, aos exames… Tenho pena de si. Pobre puta!” “olhe o respeito! Eu não lhe chamo nomes quando me faz fellatios durante as horas de serviço!”
Enquanto se discutiam as implicações da presença de delegados médicos na saúde sexual dos profissionais da doença, senti uma presença, da mesma forma que os ratos sentem os tremores de terra. Não soube quem era nem porque o fez. Mas quando se aproximou do meu corpo inerte, preparado para se aquecer numa fornalha (física ou metafórica), percebi que iria despertar. Tocou-me com ternura no que causava tanta repugnância e incredulidade (e uma pontinha de inveja) aos meus tratadores. E com aquele toque ejaculei toda a minha vida, esvaziou-me de qualquer conteúdo… e finalmente dormi.
Thought byBoabdil at 05:23 0 humans wrote something
Post-orgasmic chill
Após a tempestade vem a bonança. Relaxamos e ficamos vulneráveis, numa calma apenas possivel durante um sono sem sonhos. Durante o sono atingimos a calma libertadora, regressamos ao pó que fomos e seremos novamente, nada existe em nosso redor pois não temos a consciência da sua existência. O momento em que perdemos a penugem que nos protegia do frio.
É no nosso momento de maior vulnerabilidade, quando desconhecemos tudo o que nos rodeia que encontramos felicidade.
Thought byBoabdil at 05:55 0 humans wrote something
Numa tarde soalheira como a de hoje...
e na falta de outra companhia, (que não melhor) decidi ir beber uma café ali á Brasileira. Espanto-me sempre com a diversidade morfológica de seres humanos que encontro pelo caminho, embora cheire neles uma certa falta de... bem... falta-lhes quase tudo tudo, excepto banalidade, que, essa sim, daria para encher um estádio de futebol (ou vários).
Decido-me pela melhor mesa da esplanada... a única que está livre. À minha frente está um espécime particularmente interessante. Um neo-hippie (como é fácil classificar humanos) com cerca de 30 anos. Barba comprida à Rabi (ou à Mulah), e cabelo à Jim Morrisson. O empregado não se despacha, está mais preocupado em atender os pedidos de toda a gente ao invés de ser eficiente. Um pormenor, torna o quadro mais interessante. O que seria um indigente, não fossem os modos calmos e educados (um Buda saído do Tallon), tinha uma T-shirt relativa ao último albúm do Legendary Tiger Man… interessante. Começo a impacientar-me com a azáfama caótica do empregado quando ele se dirige à mesa. Um café, se faz favor… E o Hippie move a cabeça ligeiramente em sinal de cumprimento… pelos modos diria que era um filho de papá rico, que desperdiça (?) o dinheiro e a educação dada pelo pai divagando pelo mundo explorando o interior dele próprio numa atitude vagamente anarco-nietzschiana. Respondi com um aceno e ele olhou para cadeira vazia da mesa… acedi ao convite.
Boa tarde. “Não me reconheces?”… “imagina-me com uns pregos nos pulsos e uma coroa de espinhos” ahhh… tu também és rei! Eu sou o último Rei Mouro, e tu o rei, que nunca chegou a ser, dos judeus.
“O seu café” “Marx! Velho camarada de luta! Está por aqui? A trabalhar?!” (Marx? Camarada? Groucho Marx?) “è a vida! O Engels não me dá mais guarida (e não há vagas no Mac)” “O gajo tem ciúmes. Dá-te abrigo e comida.Ajuda-te a construir uma teoria, ou melhor, a reformular a minha teoria de modelo social, e depois... à o marxismo-leninismo, as teorias de Marx, e ele fica destinado a ser recordado como ao gajo que te mantinha, enquanto tu teorizavas, numa certa relação de proxenetismo/prostituição intelectual” “se o povo me recorda lá terá as suas razões...” “o povo! Tu sempre foste um menino rico, e as tuas teorias serviram para exorcisar a os teus problemas em lidar com o capital do teu pai. O socialismo utópico é apenas uma esmola intelectual” “para quem se advoga o primeiro autor desta teoria estás a ser um bom advogado do diabo. De menino prodigio para os Rabis, foste carpinteiro, indigente e mártir. Noto uma certa falta de coragem em assumir a tua verdadeira ambição” “eu estive entre os pobres e os excluídos para os conhecer melhor” “és um animal político! Os excluídos sempre foram o melhor campo de recrutamento para qualquer pseudo-seita poltica...”
Bom, começo a achar que tanta discussão, e este encontro é mais do que uma coincidência. “ tens razão...” ”precisamos de falar contigo...” “é verdade que vasi comprar um casal de humanos?” bom... deus não mos dá, o pai daqui do jeóva é um forreta, e vou ter de os comprar. Que tem vocês que ver com isso? “não faças isso!” “a amnutenção é cara...” “e eles podem começar a adorar-te...” “como nos adoram a nós...” “...e mudam o sentido da nossa mensagem...” “... e vivem as suas vidas em função de quererem ser ou não como nós...” mas isso é vos fez perder! Confessem. O desejo de adoração esteve sempre presente no vosso subonsciente... a necessidade de discipulos... e a vossa moral, os vossos códigos de conduta, o vosso desejo de evangelização... “tu também és um de nós!” “um profeta” “um pensador livre” eu sou um pensador livre. Livre para ser amoral, parábolas sem final, sem conclusões, não quero indicar direções sociais ou politícas. A verdadeira liberdade começou quando deixei de seguir e de ter seguidores. Quando a aranha perdeu a teia. Não pretendo salvar os humanos, nem que eles caminhem para o abismo (eventualmente isso acontecerá sem a minha intervenção). Pretendo estudá-los, observá-los, dissecar os seu comportamentos e emoções, e apontar tudo para memória futura. “não vais ser capaz...” “há-de chegar o dia em que serás como nós...” “e tentarás iniciar o teu próprio movimento social...” “ou matarás os teus humanos com quem sacrifica um cão doente em final de vida...” “ou tirarás conclusões das tuas observações” “e nesse dia serás um humano com tiques de filosófo da tanga” “ou já o és?” o facto aqui é que eu vou mesmo comprar um casal de seres humanos!
E agora? Jeóva, és o mais graduado de nós, que sugeres? “tu que és o rei, tu é que vais pagar, tu é que decides” sou rei sem reinado, o Marx é que trabalha“ ”eu digo, vamos aproveitar enqunto estamos mortos” ”vamos ao paquiderme branco. Há por lá umas almas que devem favores”
Thought byBoabdil at 09:28 0 humans wrote something