Eu gosto muito dos seres humanos.

São tão bonitos e queridinhos. Às vezes fico a observa-los do alto nos seus locais de peregrinação: os centros comerciais. E lá vão eles, casalinhos estupidamente feizes, conversando acerca de nada e para nada... mas felizes. Penteados pré-formatadinhos e roupa diferente por ser tão igual (tão bonitinhos, parecem gémeos). Sempre questionei se existirá relação entre a formatação da roupas e a obtusidade das mentes. Mas gosto deles é assim, estúpidos e banais.

Vão para a sua dose periódica de ópio. Ordeiramente esperam nas filas para comprar os bilhetes de cinema, inebriados com antecipação. “será o que o herói irá morrer?”, “espero que não, o actor é tão bonito”, “anda com aquela modelo anorética”, “é anorética mas é atraente, tens é inveja”, “espero que tenha um final feliz”.

E começa a sessão.

Assim que as bobines começam a rodar, uma injecção de estuidez flui pelas veias, os olhos incham de felicidade, a ausência de pensamento próprio substitui o vazio anterior. E como um copo esvaziado vai-se enchendo de imagens projectadas num ecrã e agora parte das suas próprias vidas. Emoções roubadas aos actores, pensamentos fúteis que não poderiam ser pensados pela sua própria cabecinha, banalidades, acção, luz, côr, música, num crescendo quase sinfónico....

No filme morrem pessoas, mas os principais intervenientes sobrevivem incólumes, sempre bem penteados e bem vestidos (os heróis não possuem glândulas sudoríparas). Morrem os maus e ficam os bons, assim como na vida real (ainda há vida real?). No fim, beijam-se na boca os protagonistas, beijam mães os corpos dos filhos mutilados, beijam amantes os corpos violados e esventrados, beijam crianças a taça de arroz onde só existe água, quando há água, morrem ditadores, mortos pelos seus substitutos. Vivam os novos ditadores, paz há sua alma (irão precisar quando forem mortos pelos seus sucessores). Ficam vivos hipócritas preocupados com as suas políticas de vizinha invejosa, de burguês antes-parecer-que-ser.

Tudo está bem quando acaba bem. No fim batem palmas, e um sorriso ilumina os rostos dos seres humanos, contentes pela vida ser tão bela, tão azul.



Vou comprar um casal de seres humanos para ter lá em casa. Vou fazer com que procriem e vou criar uma civilização. E quando estiver farto, vou simplesmente esperar que se degolem mutamente, sem limpar a jaula. O sangue humano não tem cor, nem cheiro... não existe.

Thought byBoabdil at 06:11 0 humans wrote something  

Guardador de rebanhos



Enquanto guardador de rebanhos, nunca me preocupei muito em ser fiel à minha pastora. Observava as ovelhitas com os carneiros em alegre rebaldaria, e ficava extasiado com esta visão. Uma vez por outra, indiferente á presença da minha pastora, lá comia uma ovelhita, que um guardador não é de ferro. Se me assaltaram problemas de consciência, eu tratei de os prender, que sou homem simples, das montanhas. O pensamento prático é o que me mantém são entre animais. A zoofilia constituía para mim um problema tão grande como a chegada de sondas a Marte. Tudo tão complexo para um guardador de rebanhos.

E a minha pastora? Não há muitos guardadores de rebanhos como eu, e se quisesse usar um cabritinho, coisa que duvido, que poderia eu fazer? Não há espaço para ciúmes de animais, nem de homens, num local onde a vida gira em torno da existência ou não de pastagens.

Envelhecido pelo tempo, pelo frio e por mim próprio, farto de correrias, farto de percorrer os mesmos caminhos vezes sem conta, agora gozo de forma simples a minha reforma. Há muito que deixei o meu rebanho para outros. Agora passo o meu tempo dividido entre a minha ardósia, que risco, rabisco e apago ao sabor da minha demência, e a minha navalha com que, usando de paciência, crio formas e bonecos desconexos para os netos que não tenho. E espero. Espero pacientemente que chegue a minha companheira, tão fiel como os cães, tão obediente como o rebanho que guardava. Agora, finalmente sou-lhe completamente dedicado. Não preciso de lho dizer, ela sabe-o. Soube-o no momento em que, sem reflectir, deixei de correr alegremente tresmalhando o rebanho, para com ela me deitar. Sem palavras, num único momento soube que era um Homem. Deixei de ser um guardador de rebanhos, passei a ser fiel á minha pastora.

Thought byBoabdil at 04:22 0 humans wrote something  

A morte do jogador Fehér, fez-me mais uma vez pensar do valor da vida - que é nenhum. No fundo andamos aqui a fazer umas coisas (alguns de nós) sem saber o propósito, e depois acabou (ou não). Estamos mortos.

Também que agora vão surgir as homenagens, mais ou menos hipócritas, ao homem e ao jogador. Quanto a mim a melhor e maior homemagem já foi feita pelos colegas de equipa, que no momento da queda, sem saber se ia morrer ou não, emocionaram-se de forma realmente verdadeira e expontânea. Tudo o mais é acessório!

Thought byBoabdil at 07:22 0 humans wrote something  

Comparo o amor a uma doença.

Somos atacados por um vírus ou bactéria, muito pequeninos, nem damos por isso. Depois vem as febres, as alucinações, os tremores, perda de apetite... Invarialvelmente caimos na cama (o doce repouso do guerreiro) acometidos por violentas convulsões febris (nem tudo é bom na vida).

Mas tudo passa, e o que não nos mata só nos torna mais fortes. É bem possivel ficarmos mortos mentalmente, ou com o corpo árido e incapaz de aceitar outro sem que uma frieza os separe. Incapaz de olhar para outra pessoa com algum mais do que uma profunda indiferença... sem o desprezo dos que sabem o que é a dor tem pelos estupidamente felizes. E se isto não é a morte...

E se sobrevivermos a tudo isto ainda temos de passar pela fase de convalescença. É a parte pior. Demasiado fracos e enfraquecidos, vagueamos tentando adaptar o nosso corpo à rotina da sanidade. Ainda não estamos curados, mas também já não estamos doentes. Não somos nada. Nesta fase adquirimos força e criamos anticorpos para evitar novas recaídas. No fundo evitar a desilusão de novo. Ficamos resistentes, mais fortes, mais racionais. Pragmáticos.

Nem tudo dura para sempre. Os anticorpos tem prazo de validade, e voltamos a adoecer. faz parte da natureza humana (tirando os que já morreram de alma) Só não sabemos quando e qual o nome do patogéne!

Thought byBoabdil at 07:27 0 humans wrote something  

"...cada pessoa sabe onde mais lhe dói e como, o ridículo é como uma queimadura por dentro, um ácido em cada momento reavivado pela memória, uma ferida infatigável."



in O ano da morte de Ricardo Reis, José saramago

Thought byBoabdil at 10:39 0 humans wrote something  

Os carneirinhos e ovelhas andam no rebanho. E o pastor manda.

O pastor diz “para a direita”. E lá vão as ovelhinhas. Ele diz “para a esquerda agora”, e elas obedecem.

Um dia as ovelhas tresmalham-se. Alguns por sua vontade, outras porque deixaram de ver o cão que as guiava, as outras não viam as suas próprias colegas para as seguirem cegamente.

Como é natural, a maior parte delas, cegas pela ausência de vontade própria durante tantos anos acabaram por morrer de fome ou caidas num qualquer precipicio.

E o pastor? O pastor ria-se divertido com a desorientação do seu rebanho. Inebriado pela estupidez dos animais. Até que caiu em si! Sem rebanho que fará o pastor?



O pastor recuperou o seu sangue-frio após um breve momento de desnorte. Chamou os cães, e mudou de paróquia.

Thought byBoabdil at 07:22 0 humans wrote something  

Todos nascemos mortos!



Já não tenho medo de nada! Não tenho medo que o céu me caia em cima, nem medo do medo em si. Venci a última barreira, deixei de ter medo do desconhecido. Já não tenho medo da morte! Mais importante: não tenho medo do que lhe segue (ou não).



Agora sei porque a morte nos atemoriza tanto. Mais do que não sabermos se cumprimos qualquer objectivo válido em vida, e afinal de contas a morte simboliza a terminus de um periodo, temos medo da morte porque não sabemos (crentes em algo e não-crentes de nada) o que vai acontecer depois. Eu pelo menos confesso que nunca conheci nenhum morto que me tenha informado do que aconteceu após a sua não-existência!



Mas... nós todos já nascemos mortos. Todos nascemos com esta espécie de estrela de david na testa. Eu estou Morto! É a única coisa que tenho como certa – um dia destes vou morrer!

Mas não me vou curvar perante essa senhora. Vou esperá-la calmamente no leito a ler um belo livro. Não irei implorar que venha nem fechar-lhe a porta do meu quarto. Vou abrir os lençois da cama, abraça-la e fazer amor. Eu vou fazer amor com a morte! Só assim ela compreenderá que alguns de nós, os destinados a servi-la, não a receiamos. Compreendemo-la, aceitamo-la com dignidade.



E quando tivermos o nosso orgasmo simultâneo abandonarei isto a que chamam vida, abraçado à minha nova paixão, a morte. Criaremos um mundo novo só nosso do zero sem interferências sem fronteiras sem limites sem razões. Deixarei tudo para trás sem remorsos.



E se não houver nada nem morte nem pós-morte... um vazio? No vazio ficarei. Num limbo encontrarei felicidade.

Thought byBoabdil at 07:11 0 humans wrote something